O futebol fica de “bola cheia” com as inesquecíveis músicas de Jorge Ben Jor. País tropical, de 1969, é o hino popular do brasileiro típico, cuja identidade malandra se fundamenta, entre outras coisas, na exaltação do esporte bretão. Em 1972, o band leader lançou Fio Maravilha, homenagem ao centroavante rubro-negro, autor de um gol antológico no Maracanã, que emocionou o menino Jorge presente ali: “Tabelou, driblou dois zagueiros/Deu um toque, driblou o goleiro/Só não entrou com bola e tudo/Porque teve humildade em gol/Foi um gol de classe/Onde ele mostrou sua malícia e sua raça/Foi um gol de anjo/Um verdadeiro gol de placa/Que a galera agradecida assim cantava/Fio Maravilha, nós gostamos de você/Fio Maravilha, faz mais um pra gente ver”. Em Zagueiro, de 1975, foi a vez de o músico salientar a importância, para a equipe, de um defensor que soubesse a hora de cadenciar o jogo e o momento de jogar firme: “Para ser um bom zagueiro/Não pode ser muito sentimental/Tem que ser sutil e elegante/Ter sangue frio/Acreditar em si/E ser leal/Zagueiro tem que ser malandro/Quando tiver perigo com a bola no chão/Pensar rápido e rasteiro/Ou sai jogando ou joga a bola pro mato/Pois o jogo é de campeonato/Tem que ser ciumento/E ganhar todas as divididas/E não deixar sobras pra ninguém/Tem que ser o rei e o dono da área/Nessa guerra maravilhosa de 90 minutos”.
Pelo futebol, aprendemos a amar o torto, a alegria do povo, conforme bem ilustrou o poeta Nicolas Behr, no livro Beijo de hiena (1993): “nem tudo que é torto/é errado/veja as pernas/do Garrincha/e as árvores do cerrado”. O problema é quando o desvio-padrão criativo sai de cena para entrar o desvio-padrão destrutivo. A invasão de campo feita pela brutalidade é o reflexo da pisada de bola dos cabeças de bagre. Estão de “bola murcha” os trogloditas que, numa atitude machista e homofóbica, agridem física e moralmente os torcedores do Atlético Mineiro que resolvem vestir o uniforme rosa lançado recentemente pelo próprio clube. Trata-se de um remake do preconceito sofrido pelo ex-goleiro cruzeirense Raul Plassmann, que, nos anos 60, ao utilizar a cor amarela em seu uniforme, foi atacado pela heterotirania de torcedores retrógrados.
A intolerância do Planeta Bola provocou no poeta Eduardo Alves da Costa uma crítica plausível, expressa em Outra canção do exílio (1985): “Minha terra tem Palmeiras,Corinthians e outros times/De copas exuberantes/Que ocultam muitos crimes”. Para mostrar como a zebra anda solta nos gramados, o ex-árbitro chinês Lu Jun, que apitou na Copa do Mundo de 2002, pode ser condenado à pena de morte se for comprovado o envolvimento dele no esquema de manipulação de resultados em jogos realizados na China. Infração semelhante foi cometida pelo ex-árbitro brasileiro Edílson Pereira de Carvalho. Onze partidas do Campeonato Brasileiro de 2005 apitadas por ele foram anuladas pela CBF e tiveram que ser realizadas novamente. Figura central do escândalo da “máfia do apito”, Edílson foi banido do futebol e condenado pelos torcedores a ter seu nome gritado nos estádios como xingamento correspondente ao de “juiz ladrão”. Na Justiça Comum, porém, ele não foi julgado porque não está prevista na lei brasileira a condenação de árbitros que manipulem resultados de eventos esportivos. Enquanto isso, na China, Lu Jun pode ser condenado à pena capital.
Pergunto aos adeptos da pena de morte: matar resolve? O Estado tem o direito de executar quem cometeu um delito? A pena de morte é eficaz para intimidar a ação criminosa? O sujeito que viola a lei penal deve perder, com isso, o direito à própria vida? “Qual pode ser o direito que se atribuem os homens para trucidar os seus semelhantes?”, perguntava o jurista italiano Cesare Beccaria, no ensaio Dos delitos e das penas, de 1764. “A pena capital é o mais premeditado dos assassínios”, alertava Albert Camus, opositor intransigente do Estado que mata. O escritor argelino enxergava na pena de morte um elemento de sadismo oficial inigualado por criminoso algum, pois o Estado emprega um número de pessoas e uma determinada soma de seus fundos apenas para executar um de seus cidadãos.
A pena de morte é manifestação vingativa. O que sinalizaria um paradoxo: o papel do Estado não é o de verdugo. Criminosos devem ser julgados com o rigor da lei. A justiça nasce contra a vingança, isto é, contra a ideia de que alguém cobre “olho por olho, dente por dente” de outro alguém. A pena tem como objetivo não a punição pela punição, mas a manutenção da ordem pública. O criminoso deve sofrer uma sanção para desencorajar outras pessoas a imitá-lo. Essa é a prerrogativa que norteia, modernamente, o Estado Democrático de Direito. Este, diferentemente do Estado Ditador de Deveres, deve se pautar pelo princípio educativo do “zelar e compreender”. Opostas a este paradigma, encontram-se as atrocidades destacadas por Michel Foucault, em Vigiar e punir (1975). Em defesa de tais parâmetros, a condenação à morte, segundo o filósofo francês, se mostra, na realidade, como uma mistura de fascínio pelo mal e regozijado alívio pela punição de quem ultrapassou os limites. Ou seja, trata-se de uma válvula de escape para os instintos agressivos de grande parcela da população.
Denominador comum entre a barbárie primitiva, o fanatismo medieval e o totalitarismo moderno, a pena de morte é inconcebível em um mundo que, desgastado pela deseducação vertical à Pinochet, acena para a educação horizontal à Piaget. Torcemos pela substituição definitiva da palmatória opressora pela pedagogia libertadora. Mesmo considerando a possibilidade de o ex-árbitro chinês ter pisado na bola, nada justifica a expulsão de Lu Jun do jogo da vida. Assim como canta o grupo Pedro Luís e A Parede: “sou a favor da pena de vida/se o sujeito cagou/pisou na bola/tem que resolver aqui/não pode sair fora”.
Marcos Fabrício Lopes da Silva
Jornalista formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Doutorando e mestre em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG.
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terça-feira, 22 de junho de 2010
sexta-feira, 29 de maio de 2009
O porteiro do Puteiro
Não havia no povoado pior ofício do que 'porteiro do puteiro'. Mas que outra coisa poderia fazer aquele homem? O fato é que nunca tinha aprendido a ler nem escrever, não tinha nenhuma outra atividade ou ofício.
Um dia, entrou como gerente do puteiro um jovem cheio de idéias, criativo e empreendedor, que decidiu modernizar o estabelecimento. Fez mudanças e chamou os funcionários para as novas instruções.
Ao porteiro disse:
- A partir de hoje, o Senhor, além de ficar na portaria, vai preparar um relatório semanal onde registrará a quantidade de pessoas que entram e seus comentários e reclamações sobre os serviços.
- Eu adoraria fazer isso, Senhor - balbuciou - mas eu não sei ler nem escrever!
- Ah! Quanto eu sinto! Mas se é assim, já não poderá seguir trabalhando aqui.
- Mas Senhor, não pode me despedir, eu trabalhei nisto a minha vida inteira, não sei fazer outra coisa.
- Olhe, eu compreendo, mas não posso fazer nada pelo Senhor. Vamos dar-lhe uma boa indenização e espero que encontre algo que fazer. Eu sinto muito e que tenha sorte.
Sem mais nem menos, deu meia volta e foi embora. O porteiro sentiu como se o mundo desmoronasse. Que fazer? Lembrou que no prostíbulo, quando quebrava alguma cadeira ou mesa, ele a arrumava, com cuidado e carinho.
Pensou que esta poderia ser uma boa ocupação até conseguir um emprego.
Mas só contava com alguns pregos enferrujados e um alicate mal conservado.
Usaria o dinheiro da indenização para comprar uma caixa de ferramentas completa. Como o povoado não tinha casa de ferragens, deveria viajar dois dias em uma mula para ir ao povoado mais próximo para realizar a compra.
E assim o fez. No seu regresso, um vizinho bateu à sua porta:
- Venho perguntar se você tem um martelo para me emprestar.
- Sim, acabo de comprá-lo, mas eu preciso dele para trabalhar ... já que....
- Bom, mas eu o devolverei amanhã bem cedo.
- Se é assim, está bom.
Na manhã seguinte, como havia prometido, o vizinho bateu à porta e disse:
- Olha, eu ainda preciso do martelo. Porque você não o vende para mim?
- Não, eu preciso dele para trabalhar e além do mais, a casa de ferragens mais próxima está a dois dias mula de viagem.
- Façamos um trato - disse o vizinho. Eu pagarei os dias de ida e volta mais o preço do martelo, já que você está sem trabalho no momento. Que lhe parece?
Realmente, isto lhe daria trabalho por mais dois Dias...aceitou.
Voltou a montar na sua mula e viajou. No seu regresso, outro vizinho o esperava na porta de sua casa.
- Olá, vizinho. Você vendeu um martelo a nosso amigo. Eu necessito de algumas ferramentas, estou disposto a pagar-lhe seus dias de viagem, mais um pequeno lucro para que você as compre para mim, pois não disponho de tempo para viajar para fazer compras. Que lhe parece?
O ex-porteiro abriu sua caixa de ferramentas e seu vizinho escolheu um alicate, uma chave de fenda, um martelo e uma talhadeira. Pagou e foi embora. E nosso amigo guardou as palavras que escutara: 'não disponho de tempo para viajar para fazer compras'.
Se isto fosse certo, muita gente poderia necessitar que ele viajasse para trazer as ferramentas. Na viagem seguinte, arriscou um pouco mais de dinheiro trazendo mais ferramentas do que as que havia vendido.
De fato, poderia economizar algum tempo em viagens. A notícia começou a se espalhar pelo povoado e muitos, querendo economizar a viajem, faziam encomendas.
Agora, como vendedor de ferramentas, uma vez por semana viajava e trazia o que precisavam seus clientes. Com o tempo, alugou um galpão para estocar as ferramentas e alguns meses depois, comprou uma vitrine e um balcão e transformou o galpão na primeira loja de ferragens do povoado.
Todos estavam contentes e compravam dele. Já não viajava, os fabricantes lhe enviavam seus pedidos. Ele era um bom cliente. Com o tempo, as pessoas dos povoados vizinhos preferiam comprar na sua loja de ferragens, do que gastar dias em viagens.
Um dia ele lembrou de um amigo seu que era torneiro e ferreiro e pensou que este poderia fabricar as cabeças dos martelos. E logo, por que não, as chaves de fendas, os alicates, as talhadeiras, etc..
E após foram os pregos e os parafusos... Em poucos anos, nosso amigo se transformou, com seu trabalho, em um rico e próspero fabricante de ferramentas.
Um dia decidiu doar uma escola ao povoado. Nela, além de ler e escrever, as crianças aprenderiam algum ofício. No dia da inauguração da escola, o prefeito lhe entregou as chaves da cidade, o abraçou e lhe disse:
-É com grande orgulho e gratidão que lhe pedimos que nos conceda a honra de colocar a sua assinatura na primeira página do Livro de atas desta nova escola.
- A honra seria minha - disse o homem. Seria a coisa que mais me daria prazer, assinar o Livro, mas eu não sei ler nem escrever, sou analfabeto.
-O Senhor?!?! - disse o prefeito sem acreditar. O Senhor construiu um império industrial sem saber ler nem escrever? Estou abismado. Eu pergunto:
- O que teria sido do Senhor se soubesse ler e escrever?
- Isso eu posso responder - disse o homem com calma. Se eu soubesse ler e escrever... ainda seria o PORTEIRO DO PUTEIRO!!!
Geralmente as mudanças são vistas como adversidades. As adversidades podem ser bênçãos. As crises estão cheias de oportunidades.
Se alguém lhe bloquear a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.
Lembre-se da sabedoria da água:
'A água nunca discute com seus obstáculos, mas os contorna.'
Que a sua vida seja cheia de vitórias, não importa se são grandes ou pequenas, o importante é comemorar cada uma delas´
'Não há comparações entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar. !
Um dia, entrou como gerente do puteiro um jovem cheio de idéias, criativo e empreendedor, que decidiu modernizar o estabelecimento. Fez mudanças e chamou os funcionários para as novas instruções.
Ao porteiro disse:
- A partir de hoje, o Senhor, além de ficar na portaria, vai preparar um relatório semanal onde registrará a quantidade de pessoas que entram e seus comentários e reclamações sobre os serviços.
- Eu adoraria fazer isso, Senhor - balbuciou - mas eu não sei ler nem escrever!
- Ah! Quanto eu sinto! Mas se é assim, já não poderá seguir trabalhando aqui.
- Mas Senhor, não pode me despedir, eu trabalhei nisto a minha vida inteira, não sei fazer outra coisa.
- Olhe, eu compreendo, mas não posso fazer nada pelo Senhor. Vamos dar-lhe uma boa indenização e espero que encontre algo que fazer. Eu sinto muito e que tenha sorte.
Sem mais nem menos, deu meia volta e foi embora. O porteiro sentiu como se o mundo desmoronasse. Que fazer? Lembrou que no prostíbulo, quando quebrava alguma cadeira ou mesa, ele a arrumava, com cuidado e carinho.
Pensou que esta poderia ser uma boa ocupação até conseguir um emprego.
Mas só contava com alguns pregos enferrujados e um alicate mal conservado.
Usaria o dinheiro da indenização para comprar uma caixa de ferramentas completa. Como o povoado não tinha casa de ferragens, deveria viajar dois dias em uma mula para ir ao povoado mais próximo para realizar a compra.
E assim o fez. No seu regresso, um vizinho bateu à sua porta:
- Venho perguntar se você tem um martelo para me emprestar.
- Sim, acabo de comprá-lo, mas eu preciso dele para trabalhar ... já que....
- Bom, mas eu o devolverei amanhã bem cedo.
- Se é assim, está bom.
Na manhã seguinte, como havia prometido, o vizinho bateu à porta e disse:
- Olha, eu ainda preciso do martelo. Porque você não o vende para mim?
- Não, eu preciso dele para trabalhar e além do mais, a casa de ferragens mais próxima está a dois dias mula de viagem.
- Façamos um trato - disse o vizinho. Eu pagarei os dias de ida e volta mais o preço do martelo, já que você está sem trabalho no momento. Que lhe parece?
Realmente, isto lhe daria trabalho por mais dois Dias...aceitou.
Voltou a montar na sua mula e viajou. No seu regresso, outro vizinho o esperava na porta de sua casa.
- Olá, vizinho. Você vendeu um martelo a nosso amigo. Eu necessito de algumas ferramentas, estou disposto a pagar-lhe seus dias de viagem, mais um pequeno lucro para que você as compre para mim, pois não disponho de tempo para viajar para fazer compras. Que lhe parece?
O ex-porteiro abriu sua caixa de ferramentas e seu vizinho escolheu um alicate, uma chave de fenda, um martelo e uma talhadeira. Pagou e foi embora. E nosso amigo guardou as palavras que escutara: 'não disponho de tempo para viajar para fazer compras'.
Se isto fosse certo, muita gente poderia necessitar que ele viajasse para trazer as ferramentas. Na viagem seguinte, arriscou um pouco mais de dinheiro trazendo mais ferramentas do que as que havia vendido.
De fato, poderia economizar algum tempo em viagens. A notícia começou a se espalhar pelo povoado e muitos, querendo economizar a viajem, faziam encomendas.
Agora, como vendedor de ferramentas, uma vez por semana viajava e trazia o que precisavam seus clientes. Com o tempo, alugou um galpão para estocar as ferramentas e alguns meses depois, comprou uma vitrine e um balcão e transformou o galpão na primeira loja de ferragens do povoado.
Todos estavam contentes e compravam dele. Já não viajava, os fabricantes lhe enviavam seus pedidos. Ele era um bom cliente. Com o tempo, as pessoas dos povoados vizinhos preferiam comprar na sua loja de ferragens, do que gastar dias em viagens.
Um dia ele lembrou de um amigo seu que era torneiro e ferreiro e pensou que este poderia fabricar as cabeças dos martelos. E logo, por que não, as chaves de fendas, os alicates, as talhadeiras, etc..
E após foram os pregos e os parafusos... Em poucos anos, nosso amigo se transformou, com seu trabalho, em um rico e próspero fabricante de ferramentas.
Um dia decidiu doar uma escola ao povoado. Nela, além de ler e escrever, as crianças aprenderiam algum ofício. No dia da inauguração da escola, o prefeito lhe entregou as chaves da cidade, o abraçou e lhe disse:
-É com grande orgulho e gratidão que lhe pedimos que nos conceda a honra de colocar a sua assinatura na primeira página do Livro de atas desta nova escola.
- A honra seria minha - disse o homem. Seria a coisa que mais me daria prazer, assinar o Livro, mas eu não sei ler nem escrever, sou analfabeto.
-O Senhor?!?! - disse o prefeito sem acreditar. O Senhor construiu um império industrial sem saber ler nem escrever? Estou abismado. Eu pergunto:
- O que teria sido do Senhor se soubesse ler e escrever?
- Isso eu posso responder - disse o homem com calma. Se eu soubesse ler e escrever... ainda seria o PORTEIRO DO PUTEIRO!!!
Geralmente as mudanças são vistas como adversidades. As adversidades podem ser bênçãos. As crises estão cheias de oportunidades.
Se alguém lhe bloquear a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.
Lembre-se da sabedoria da água:
'A água nunca discute com seus obstáculos, mas os contorna.'
Que a sua vida seja cheia de vitórias, não importa se são grandes ou pequenas, o importante é comemorar cada uma delas´
'Não há comparações entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar. !
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